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Inquietação rima com Coração

Inquietação rima com Coração

A si.

Fecho os olhos e aparece-me na mente. Sinto o coração pequenino e uma vontade de chorar que vai desembocar invariavelmente na garganta. Engulo em seco. O que fazer? Aceitar que dói menos, como diz a Ana Garcia Martins.

- Olhe para mim - oiço, a minha mente a recriar e a inventar conversas antigas.
- Não consigo. - respondi, enquanto chorava.
- Eu sei... está triste e a imaginar que nunca vai conseguir entrar no mercado de trabalho, não é? A Rita sempre foi boa a deixar que a sua fragilidade a leve a melhor e a faça tropeçar em pensamentos enviesados e catastróficos. Mas, ainda assim, eu compreendo-a perfeitamente.

Bolas... Desculpem interromper a descrição daquilo que eu estava a projetar na minha mente para tentar contornar as saudades, mas caramba... as saudades são tantas e tão intensas e não há nada que as sossegue. Nada. Continuando...

- Sinto tanta coisa ao mesmo tempo que parece que vou explodir! Sinto tanta tristeza porque não posso falar consigo e parecendo que não, já não falo consigo há 2 anos e isso é surreal porque eu nunca imaginei ser capaz disso já que era a pessoa para quem eu corria quando não me sentia bem e estava em desalento. Sinto raiva porque já cá não está e zanga que apesar de eu tentar resolver, não consigo fazer com que vão embora. Queria só desligar as emoções por um bocadinho.

- Rita, já se ouviu? Desligar as emoções? Bem, por aí vejo que não está nada bem, para dizer uma coisa dessas. Sabe perfeitamente o dano que faria se as desligasse, já que são elas que a tornam humana. Especialmente, na humana que é. 

Chorei mais.

- Eu já não sei nada... sinto só um peso enorme no peito, parece quando vamos levar com uma onda que lá ao fundo parecia manejável mas agora está com o triplo da nossa altura e só podemos fechar os olhos e esperar que caia em cima de nós.

- A Rita está a aprender a surfar, se bem sei, não é? As ondas fazem parte.

- Será possível que até o seu self que eu internalizei, nos meus próprios pensamentos, tem sempre resposta para mim?

- Ou então, não seria uma boa projeção da minha pessoa.

Sorri e chorei.

- Queria só isto, falar um bocadinho consigo. Mesmo que seja mentira, ilusão, memória construída durante o sono, não quero saber! Venha cá, sente-se um bocado e converse comigo outra vez. Por favor!

- Não lho posso prometer e a Rita sabe-o. 

- Posso fazer uma pergunta?

- Todas. - respondeu-me, como sempre me respondia a esta pergunta.

- E se foi tudo um erro? 

- E com tudo quer dizer...?

- O curso, ou a área vá... para ser menos dramática. E se afinal eu não conseguir exercer? Se afinal eu não nasci para isto? Se eu me enganei?

- Não creio.

- Convença-me disso! Preciso que mo diga! - chorei.

- Apenas confie. Não estou vivo e a sua internalização de mim, está condicionada porque não consegue desligar-se do facto de ser uma parte de si portanto, não consegue ser imparcial e ver a Rita pelos meus olhos. Portanto: confie em mim apenas. Saiba que tomou as decisões corretas até aqui, até porque foram as que lhe fizeram sentido e teve que travar várias lutas para as concretizar. Volto-lhe a dizer o que disse há 2 anos: você é de arriscar, não é de ficar acomodada e ainda bem! Vai ver que vai conseguir arranjar emprego. Não pode desistir já, vá... Dê-se mais algum tempo e continue a dar tudo de si.

Chorei.

- Vou tentar.

Às vezes criamos estas conversas, com imagem e voz, na nossa cabeça antes de adormecer. No escuro, o impossível vira possível e o longe fica perto se recorrermos à nossa imaginação e memória, regadas de saudade e de uma vontade muito grande de estar com quem já cá não está.

"Oh captain, my captain"

Para sempre deste lado do Espelho.